15/04/2026

Presidente do Instituto MovRio analisa impactos, crescimento das denúncias e o papel da população no combate ao problema

 

Mercado ilegal avança no Rio e desafia segurança e economia

Mercado ilegal avança no Rio e desafia segurança e economia

O avanço do mercado ilegal no Rio de Janeiro tem se consolidado como um dos principais desafios para a segurança pública e para a economia do estado. Movimentando cifras bilionárias e impactando diretamente empresas, empregos e a arrecadação, essa atividade também está diretamente ligada ao fortalecimento de redes criminosas.

Para aprofundar a compreensão sobre esse cenário, seus impactos e os caminhos para enfrentá-lo, a jornalista Simone Nunes entrevista Renato Almeida, presidente do Instituto MovRio e diretor-geral do Disque Denúncia. Na conversa, ele apresenta dados atualizados, analisa o crescimento das denúncias e destaca o papel fundamental da participação da população no combate ao comércio ilegal.

 

 

Simone Nunes: O mercado ilegal no Rio de Janeiro vem sendo apontado como um dos principais desafios para a segurança pública e para a economia do estado. Mesmo diante de operações e ações de fiscalização, ele continua em expansão. O que os dados mais recentes revelam sobre esse cenário?
Renato Almeida: Revelam um cenário bastante preocupante. Estamos falando de um mercado que movimenta cerca de R$ 4,5 bilhões por ano apenas na Região Metropolitana — um volume que chega a superar o faturamento de grandes datas do comércio formal. Isso evidencia não só a dimensão, mas também o nível de organização e capilaridade dessa economia paralela, que segue avançando e impactando diretamente a economia e a segurança pública.

Simone Nunes: Quais são os principais impactos desse tipo de comércio?
Renato Almeida: O impacto é amplo e atinge diferentes frentes. Esse tipo de comércio enfraquece empresas formais, reduz a arrecadação do estado, compromete a geração de empregos e ainda sustenta uma cadeia criminosa estruturada. Ou seja, não se trata apenas de um problema econômico, mas de um fenômeno que afeta diretamente o equilíbrio social e o desenvolvimento do estado.

Simone Nunes: Na sua avaliação, o consumidor tem consciência dos impactos de adquirir produtos de origem ilegal? Esse fator pesa na decisão de compra?

Renato Almeida: Em grande parte, sim. Há uma percepção crescente de que esse tipo de consumo prejudica a economia e está associado a práticas ilícitas. No entanto, o preço mais baixo ainda exerce forte influência na decisão final, o que acaba, na prática, mantendo e alimentando esse mercado.

Simone Nunes: Dentro desse contexto, qual é o papel do roubo de cargas no abastecimento do mercado ilegal?

Renato Almeida: O roubo de cargas é uma das principais formas de abastecimento desse mercado. Muitos produtos roubados — como alimentos, bebidas, eletrônicos e até medicamentos — são rapidamente desviados e colocados à venda de forma irregular, alimentando essa rede de comércio ilegal.

Simone Nunes: E como isso afeta o dia a dia das empresas?
Renato Almeida: Afeta muito. Além do prejuízo direto, há aumento de custos logísticos, encarecimento dos produtos e mais insegurança nas operações. É um efeito em cadeia que impacta toda a economia.

Simone Nunes: Os dados do Disque Denúncia mostram aumento nas denúncias?
Renato Almeida: Sim, um crescimento consistente. Saímos de 1.663 denúncias em 2023 para 3.385 em 2025. Só em 2026, até março, já são 652 registros. Isso mostra uma população mais atenta e participativa.

Simone Nunes: Que tipo de irregularidade aparece com mais frequência?
Renato Almeida: Principalmente venda de peças de veículos, cobre e celulares roubados. Também há muitos casos envolvendo bebidas, alimentos e eletrônicos oriundos de roubo de cargas, além de contrabando e falsificação.

Simone Nunes: Esse aumento nas denúncias indica avanço do problema ou maior conscientização?
Renato Almeida: Os dois. O problema é grande, mas há um avanço importante na percepção da população. As pessoas estão entendendo melhor a ligação desse comércio com organizações criminosas.

Simone Nunes: Qual a importância da denúncia anônima nesse contexto?
Renato Almeida: É fundamental. Muitas dessas atividades acontecem de forma discreta. A denúncia ajuda a mapear pontos de venda, rotas e redes ilegais, permitindo uma atuação mais precisa das autoridades.

Simone Nunes: Na sua opinião, o que precisa ser feito para enfrentar esse problema?

Renato Almeida: É um desafio que exige uma atuação integrada e contínua. Passa pelo fortalecimento das ações de fiscalização, pelo combate firme ao roubo de cargas e, principalmente, pela atuação estratégica das forças policiais, que têm papel essencial na desarticulação dessas redes criminosas e na redução da oferta de produtos ilegais. Também envolve políticas públicas e geração de oportunidades. Mas há um ponto fundamental: a mudança de comportamento. Enquanto houver demanda por produtos de origem ilegal, esse mercado continuará encontrando espaço para crescer.

Simone Nunes: Para quem acha que esse é um problema distante, qual é o impacto real no dia a dia?
Renato Almeida: O impacto é direto. Está no aumento dos preços, na perda de empregos, na queda de investimentos e, principalmente, na violência. Ao comprar um produto de origem ilegal, muitas vezes sem perceber, a pessoa pode estar alimentando uma cadeia criminosa que afeta toda a sociedade.

Simone Nunes: Como a população pode contribuir para combater esse tipo de crime e qual a importância da denúncia nesse processo?

Renato Almeida: A participação da população é decisiva. Grande parte dessas atividades acontece de forma discreta, longe dos olhos das autoridades, e é justamente a informação que faz a diferença para identificar, mapear e combater essas redes. O Disque Denúncia garante o anonimato e oferece canais acessíveis, como o telefone e WhatsApp 2253-1177 e o aplicativo “Disque Denúncia RJ”, inclusive para o envio de fotos e vídeos, permitindo que qualquer pessoa denuncie com segurança.

Mais do que um ato individual, denunciar é um compromisso coletivo. Cada informação repassada ajuda a enfraquecer o comércio ilegal, reduzir os impactos na economia e interromper uma cadeia que afeta toda a sociedade. Combater esse problema também começa com a atitude de cada cidadão.